Juros dos EUA emergem como maior risco para investimentos bilionários em inteligência artificial

Um relatório da consultoria Gavekal, assinado pelo analista Will Denyer, alerta que a elevação das taxas de juros americanas tornou-se a principal ameaça ao ciclo de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial. Após o Federal Reserve aumentar a taxa básica na quarta-feira (16), os títulos do Tesouro de dez anos superaram 5% pela primeira vez desde 2007, elevando o custo real do capital para projetos de IA.

A recente defesa de Dario Amodei, CEO da Anthropic, para que a indústria de IA reduza o ritmo de desenvolvimento — endossada por líderes da OpenAI e da xAI — não deve interromper o fluxo de recursos, segundo Denyer. Ele argumenta que qualquer laboratório que desacelere será superado por concorrentes, o que torna uma pausa coordenada improvável.

Para Denyer, o aperto monetário do Fed já pressiona os custos de financiamento e pode levar o chamado spread Wickselliano — a diferença entre o retorno real sobre o capital e seu custo — a um nível crítico. Se esse indicador cair abaixo da mediana histórica dos últimos 20 anos, o risco de uma desaceleração generalizada dos investimentos aumenta significativamente.

O impacto das restrições regulatórias também é limitado. Moratórias em Nova York e no Texas, somadas a outras barreiras locais, devem atrasar apenas cerca de 2,3 gigawatts de capacidade planejada nos Estados Unidos, enquanto as projeções indicam 38 gigawatts adicionais em 2027, ante 18 gigawatts em 2026 e 10 gigawatts em 2025. A consultoria SemiAnalysis estima que o setor continuará expandindo, impulsionado pela demanda por chips e energia.

Pressões competitivas mantêm o avanço

Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirma que não há motivo para desacelerar, especialmente com a concorrência chinesa pressionando o mercado. Denyer destaca que, independentemente das decisões de líderes como Amodei, Altman e Musk, sempre haverá alguém levando a fronteira tecnológica adiante o mais rápido possível.

A Gavekal compara o cenário atual ao boom do fraturamento hidráulico (fracking) nos Estados Unidos, quando temores de reação política não impediram o crescimento da produção de petróleo. O mesmo pode ocorrer com os data centers, que continuam a ser essenciais para a expansão da IA.

Demanda por capacidade computacional segue forte

Até agora, não há sinais de redução na demanda por poder de processamento. Empresas ao longo da cadeia de suprimentos de IA reportam resultados sólidos, e o retorno sobre investimento do setor corporativo americano atingiu um recorde no último trimestre. Essa dinâmica contrasta com a bolha das telecomunicações do fim dos anos 1990, que colapsou quando os retornos não conseguiram sustentar os investimentos.

Embora a alta dos juros ainda não justifique uma migração maciça de ações para renda fixa, os títulos já servem como proteção contra o risco de que o custo elevado do capital ponha fim ao ciclo de investimentos em IA. Paradoxalmente, uma eventual queda nos investimentos em IA teria efeitos deflacionários, o que tornaria os títulos uma alternativa atraente até mesmo em um cenário extremo.