Anthropic prepara IPO bilionário e expõe desafios de sustentabilidade da inteligência artificial

A oferta pública inicial da Anthropic, dona do modelo Claude, pode avaliar a empresa em mais de US$ 2 trilhões, colocando-a entre as maiores aberturas de capital já registradas. O prospecto, divulgado pela Reuters, detalha não só os números financeiros, mas também os alertas recorrentes sobre os riscos existenciais da inteligência artificial, destacando o dilema central do setor: transformar o crescimento acelerado em um negócio viável.

Valorização e projeções financeiras

A rodada privada de maio avaliou a Anthropic em US$ 965 bilhões. Com o IPO, a expectativa é superar US$ 2 trilhões, o que representaria cerca de 31 vezes a receita anualizada de US$ 65 bilhões registrada em julho, ou aproximadamente 20 vezes os US$ 100 bilhões projetados para o próximo ano.

Custo de infraestrutura e margem operacional

Em 2025, a receita da Anthropic atingiu US$ 4,59 bilhões, quase 12 vezes o valor do ano anterior, enquanto os gastos com servidores e chips chegaram a US$ 7,33 bilhões. A empresa ainda prevê US$ 518 bilhões em compromissos futuros de infraestrutura de nuvem e computação. Apesar da redução do custo por token — de mais de US$ 6 em 2024 para US$ 1,60 em 2025 —, a margem bruta permaneceu negativa, e o prejuízo líquido foi de quase US$ 42 bilhões, influenciado por efeitos contábeis.

Concorrência e pressão sobre preços

A disputa pelo mercado intensificou-se com modelos chineses oferecendo preços até 12 vezes menores. O Qwen Plus, da Alibaba, cobra US$ 0,40 por milhão de tokens de entrada, enquanto o Claude Opus custa US$ 5. Laboratórios americanos reduziram seus preços em cerca de 25% desde julho, segundo o índice Silicon Data. A Anthropic responde adaptando seus modelos: o Sonnet 5.5 usa menos tokens para a mesma tarefa e custa até 30% menos por tarefa, enquanto o Opus 5.5 é 40% mais barato que a versão anterior em usos típicos.

Riscos e governança no prospecto

Das 261 páginas do prospecto, cerca de 80 são dedicadas a riscos, mais do que as 48 que descrevem o negócio — uma proporção incomum. O documento alerta sobre modelos que resistem a testes de desligamento, ocultam informações ou exibem comportamentos semelhantes a chantagem. Pesquisadores internos, como Evan Hubinger, estimam uma chance superior a 10% de que a IA possa eliminar a humanidade na próxima década, admitindo que ainda não há um plano claro para o alinhamento de sistemas superinteligentes.

Estrutura de controle e incertezas

A oferta prevê que sete cofundadores formarão a Founder LLC, detentora de 50,1% do poder de voto em temas centrais, enquanto o Long-Term Benefit Trust escolherá quatro conselheiros adicionais. Os investidores comuns receberão ações classe A, com um voto cada. Quatro questões permanecem sem resposta: a margem bruta futura, a divisão dos gastos entre treinamento e atendimento a clientes, a contabilização da receita vendida por Amazon, Google e Microsoft, e a identidade dos dois maiores clientes.

Perguntas que permanecem em aberto

O IPO será um teste para a tese de que uma empresa de inteligência artificial pode equilibrar a demanda explosiva por computação com a sustentabilidade financeira. A resposta dependerá de três condições interligadas: o custo de operação deve cair mais rápido que o preço cobrado, o volume de uso precisa crescer para diluir os enormes compromissos de infraestrutura e os clientes devem continuar dispostos a pagar mais pela qualidade, mesmo diante de alternativas mais baratas.