Nova exigência de alfabetização em IA redefine competências profissionais e responsabilidades corporativas

A lei europeia conhecida como AI Act impõe que organizações que fornecem ou utilizam sistemas de inteligência artificial garantam a alfabetização em IA de quem opera essas ferramentas em seu nome. A norma determina que as empresas adotem medidas para desenvolver o conhecimento dos colaboradores, considerando experiência, formação e contexto de uso.

Para quem trabalha com tecnologia ou usa IA no dia a dia, a mudança traz uma exigência prática: saber operar uma ferramenta pode não ser suficiente. É necessário entender em que situações o resultado gerado pode ser aplicado, quais riscos estão envolvidos e quando uma decisão deve ser revisada por um humano.

O que significa alfabetização em inteligência artificial

A chamada alfabetização em IA não exige que o profissional aprenda programação ou desenvolva modelos. O conceito envolve compreender o funcionamento básico das ferramentas, suas capacidades e limitações, além dos riscos associados ao seu uso.

Na prática, um colaborador que utiliza uma ferramenta generativa para produzir um relatório, por exemplo, precisa saber que uma resposta aparentemente correta pode conter informações inventadas, dados desatualizados ou interpretações equivocadas.

O AI Act europeu determina que provedores e empresas que implantam sistemas de IA adotem medidas para desenvolver esse conhecimento entre funcionários e outras pessoas que atuam com esses sistemas. A Comissão Europeia também esclarece que a norma não estabelece um nível único de conhecimento que todo indivíduo precise atingir.

O que muda para os profissionais

Uma das principais mudanças é a necessidade de compreender o contexto de uso da IA. Uma ferramenta pode ser adequada para resumir documentos, mas exigir controles adicionais quando utilizada para apoiar decisões que afetam pessoas.

Isso também envolve reconhecer situações em que a revisão humana é necessária. O NIST, instituto de padrões dos Estados Unidos, inclui em seu framework de gestão de riscos de IA a definição de processos para supervisão humana e para avaliar a capacidade dos profissionais de operar sistemas de forma adequada.

Outro ponto é a proteção de informações. Um funcionário que utiliza uma ferramenta externa precisa compreender quais dados podem ser inseridos, quais informações são confidenciais e quais políticas existem dentro da organização.

Conhecer os limites da ferramenta também passa a fazer parte do uso profissional. Isso inclui identificar respostas incorretas, vieses, problemas de privacidade e resultados que não podem ser utilizados sem verificação.

Regulação pode aumentar a importância da capacitação

O movimento não está restrito à União Europeia. Nos Estados Unidos, o NIST mantém um framework voltado à gestão de riscos de inteligência artificial e publicou, em 2024, uma versão específica para IA generativa. O documento recomenda práticas para identificar, avaliar e administrar riscos ao longo do uso dessas tecnologias.

No Brasil, o marco regulatório ainda está em discussão. O Projeto de Lei 2.338/2023, aprovado pelo Senado em 2024, está em tramitação na Câmara dos Deputados, onde foi criada uma comissão especial para analisar a proposta.

Enquanto as regras brasileiras continuam em debate, empresas já podem estabelecer políticas internas para o uso de IA. Isso pode incluir treinamentos, definição de ferramentas autorizadas, regras para dados confidenciais e procedimentos de revisão.

Para o profissional, o resultado é uma mudança no conjunto de conhecimentos necessários para trabalhar com a tecnologia. Usar IA passa a envolver também responsabilidade, verificação e compreensão de riscos.

O conhecimento sobre IA pode integrar o perfil profissional

A tendência regulatória ajuda a explicar por que conhecimentos básicos sobre inteligência artificial podem ganhar espaço em diferentes funções, mesmo fora da área de tecnologia.

Um profissional de marketing pode precisar avaliar conteúdos produzidos por IA. Um analista financeiro pode utilizar modelos para organizar informações. Um profissional de recursos humanos pode trabalhar com sistemas de triagem. Em todos esses casos, conhecer as limitações da tecnologia ajuda a identificar situações que exigem análise humana.

A regulação não transforma todos esses profissionais em especialistas técnicos. Ela reforça, porém, a necessidade de uso consciente da inteligência artificial, especialmente quando seus resultados interferem em decisões, informações pessoais ou atividades de maior risco.

A capacitação, portanto, tende a deixar de ser apenas uma forma de aumentar produtividade e passa a integrar também as práticas de governança e segurança no uso da tecnologia. Para quem trabalha com IA, entender como utilizar a ferramenta é apenas uma parte do conhecimento necessário.