O Google enviou quatro chips de inteligência artificial ao espaço na quinta-feira, dia 1º, a bordo de um satélite experimental lançado pela SpaceX a partir da Califórnia. A missão, com duração de um ano, avaliará se os processadores da empresa conseguem sobreviver em órbita. O protótipo, desenvolvido em parceria com a Planet, transporta unidades de processamento tensorial (TPU) e integra o projeto Suncatcher, apresentado em novembro de 2025 para investigar data centers espaciais.
Por que levar a computação para o espaço?
A expansão da inteligência artificial e dos serviços digitais aumenta a demanda por infraestrutura de computação. Em 2025, data centers consumiram 485 terawatt-hora (TWh) de eletricidade no mundo, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). A projeção central atualizada neste ano estima que o consumo pode alcançar 950 TWh em 2030, quase o dobro do nível de 2025 e equivalente a cerca de 3% da demanda mundial de eletricidade. Dentro desse total, o consumo das instalações voltadas à IA deve triplicar no período.
A pressão também depende da capacidade das redes elétricas. A IEA estima que cerca de 20% dos data centers planejados poderiam sofrer atrasos se os gargalos das redes não forem resolvidos. Construir novas linhas de transmissão pode levar de quatro a oito anos em economias avançadas. O Goldman Sachs identifica a mesma tendência, projetando um aumento de 175% no consumo de eletricidade dos data centers até 2030, em relação a 2023.
Um estudo do Lawrence Berkeley National Laboratory, publicado em 2024, estimou que os data centers dos Estados Unidos consumiram diretamente 66 bilhões de litros de água em 2023. O dado inclui instalações de diferentes tipos e se refere ao consumo no próprio empreendimento, separado da água usada para gerar a eletricidade que ele compra.
O principal atrativo do Suncatcher é a energia solar. Segundo o estudo do Google, um painel na órbita adequada pode ser até oito vezes mais produtivo que na Terra, com exposição quase contínua ao Sol. A comparação refere-se à energia gerada, não à intensidade da luz.
Desafios técnicos: calor e radiação
No vácuo espacial, a convecção não ocorre, o que impede a refrigeração convencional. O calor precisa ser dissipado por radiação térmica, exigindo radiadores e sistemas de transferência de calor. O Google testa tubos de transferência de calor e radiadores, previamente avaliados em uma câmara que simula o ambiente espacial.
A radiação também pode provocar erros nos componentes eletrônicos. A equipe realizou testes com feixes de prótons na Universidade da Califórnia em Davis, mas reconhece que outras condições precisam ser avaliadas em órbita.
Próximos passos e concorrência
O Google planeja testar a comunicação a laser entre dois satélites em 2027. A conexão exige precisão porque os equipamentos estarão em movimento e precisarão manter os feixes alinhados. Essa ligação é essencial para que grandes tarefas de IA distribuam trabalho entre muitos processadores e atinjam desempenho comparável ao de data centers terrestres, com conexões capazes de transportar dezenas de terabits por segundo.
Outras empresas também avançam na corrida espacial. A Starcloud lançou, em novembro de 2025, um satélite com um processador H100 da Nvidia. A Kepler anunciou, em março de 2026, uma infraestrutura de processamento distribuída por dez satélites, com 40 módulos Nvidia Jetson Orin e conexões ópticas. A Axiom Space informou o lançamento de dois módulos de data center orbital em janeiro de 2026, junto à rede de retransmissão óptica da Kepler.
Propostas de grandes constelações chegam a outra escala. A SpaceX apresentou um pedido para até um milhão de satélites. A Blue Origin propôs até 51.600 satélites no projeto Sunrise. A Sociedade Astronômica Americana pediu que os reguladores rejeitassem a proposta da Blue Origin, citando impactos sobre observações ópticas, infravermelhas e de rádio, além de preocupações com o ambiente orbital. A Secure World Foundation defendeu autorizações por etapas, com demonstrações e critérios de desempenho antes da expansão.
Viabilidade econômica depende de custos de lançamento
O estudo do Google considera que, se os preços de lançamento caírem para menos de US$ 200 por quilo na metade da década de 2030, operar a infraestrutura espacial poderia ter custo comparável ao gasto energético de uma instalação terrestre equivalente. A comparação não demonstra igualdade no custo total dos dois modelos.
Perguntas frequentes
- O Google já tem um data center comercial no espaço? A missão atual é um experimento com quatro chips, não uma instalação comercial em larga escala.
- Por que usar satélites para processar IA? O projeto Suncatcher investiga processamento com energia solar e comunicação entre satélites; a viabilidade técnica e econômica ainda precisa ser comprovada.
- Como os computadores são resfriados no espaço? O calor é transferido para superfícies que o emitem como radiação térmica, já que o vácuo não permite convecção.
- Qual é a próxima etapa do Google? O próximo teste prevê conexões a laser entre dois satélites em 2027.







