Inteligência artificial já faz parte da rotina de 80% dos professores de rede profissional no Brasil

Um levantamento realizado em setembro de 2025 com 308 docentes de uma grande rede nacional de educação profissional revelou que oito em cada dez já utilizam inteligência artificial no dia a dia. A pesquisa, conduzida pela iniciativa Imagine Brasil, da Fundação Dom Cabral, mostra que 83,4% dos entrevistados afirmam pesquisar, aprender e aplicar a tecnologia em suas atividades profissionais.

Como os educadores estão usando a tecnologia

Ao analisar os hábitos de uso, o estudo identificou que 7,5% dos participantes conhecem a IA, mas ainda não a aplicam regularmente, enquanto 8,8% consideram que não dominaram as habilidades necessárias para utilizá-la. As plataformas mais citadas são as de uso geral: ChatGPT (54,9%), Gemini (52,6%) e Copilot (35,7%).

A maior parte das aplicações concentra-se nas etapas de preparação do ensino. Atividades de estudo e pesquisa representam 36,7% dos casos, seguidas pelo planejamento de aulas (26,6%) e pela produção de materiais didáticos (18,2%). A avaliação formal dos alunos aparece com frequência bem menor. Um exemplo típico é o professor de eletroeletrônica que solicita a um assistente de IA uma lista de exercícios com níveis crescentes de dificuldade, mas continua definindo sozinho os critérios de avaliação.

Fatores que impulsionam a adoção

A pesquisa adotou a Teoria Unificada de Aceitação e Uso de Tecnologia para explicar os motivos por trás da adoção. O fator mais determinante foi a expectativa de desempenho, ou seja, a convicção de que a ferramenta melhora a eficiência do trabalho. Em segundo lugar apareceu a influência dos colegas, enquanto a facilidade de uso teve o menor peso.

A colaboração entre pares tem base concreta: 54,9% dos professores relatam compartilhar recursos e experiências sobre IA com seus colegas.

Acesso à ferramenta não é suficiente

O estudo também mostra que a disponibilidade de acesso, licenças e suporte técnico não influencia diretamente a decisão de usar a IA. Esses elementos afetam a percepção de utilidade e de simplicidade, mas oferecer a tecnologia não garante sua adoção. Para que os educadores incorporarem a IA, as instituições precisam demonstrar ganhos concretos no dia a dia do trabalho.

Um relatório da Microsoft, o Work Trend Index 2026, citado pelo Olhar Digital, corrobora essa visão. Fatores organizacionais, como a cultura institucional e o apoio da liderança, têm mais do que o dobro do impacto na adoção da IA do que fatores individuais. No Brasil, 72% dos profissionais dizem realizar hoje tarefas que não executavam há um ano graças à tecnologia, ante 58% na média global.

O que os dados revelam sobre a formação docente

Os autores concluem que o principal entrave para a transição não é de natureza tecnológica, mas sim de sentido e legitimidade profissional. O professor adota a IA quando percebe valor prático nela e observa que seus pares chegaram à mesma conclusão. Para a formação continuada, isso sugere a necessidade de cursos que apresentem casos reais da própria área e de espaços de intercâmbio entre colegas.

No entanto, há limitações. O levantamento abrange uma única rede, em um momento específico, e mede a intenção declarada de uso, não o comportamento observado. Atualmente, a adoção avança por meio de experimentação individual, antes de políticas formais serem estabelecidas. Questões como transparência, privacidade e integridade exigirão diretrizes institucionais claras para o uso responsável da tecnologia.