Uma nova onda na cultura digital mostra que a inteligência artificial já é capaz de produzir hits que circulam como obras de artistas humanos. O caso de “GG EZ”, lançado em 2026, ilustra como um algoritmo pode criar uma música viral, distribuir o áudio como se fosse de um músico real e até mesmo ser adotado por ídolos de K‑pop antes que o público descubra que estava dançando para uma máquina.
Em 2024, o rapper de Filadélfia Skrilla lançou “Doot Doot (6 7)”, cuja letra repetia apenas “seis, sete”. A frase ganhou vida em vídeos de basquete do jogador LaMelo Ball, que mede 1,98 metro, virou um gesto e explodiu quando um jovem gritou “SIIIX SEVEEEN!” em uma quadra. Em 2025, o Dictionary.com elegeu “67” a palavra do ano, descrevendo-a como um “brainrot” intencional: uma gíria sem definição fixa que se espalha antes que alguém concorde sobre seu significado. A graça está justamente na ausência de graça — a internet testando os limites do “nada” como fenômeno viral.
“GG EZ” segue a mesma fórmula, mas avança um passo. A música é assinada por M.Sasuke, um artista japonês anônimo que nunca mostra o rosto e admite usar ferramentas de IA para gerar vocais e instrumental, embora afirme ter escrito a letra e definido a direção criativa.
O refrão, “GG fuckin’ easy”, combina duas expressões de jogos eletrônicos: “GG” (good game) e “EZ” (easy), a provocação clássica de quem venceu uma partida sem esforço. O conceito não é inédito — cantoras totalmente geradas por IA, como Xania Monet, já chegaram ao topo das paradas, e bandas inteiras, como a Velvet Sundown, acumularam centenas de milhares de ouvintes no Spotify sem existir de verdade.
M.Sasuke testou um teaser no TikTok em 21 de maio de 2026 e lançou a faixa completa seis dias depois. Em junho, o fenômeno saiu do controle: ídolos de K‑pop — ENHYPEN, ILLIT e, principalmente, Jungkook, do BTS — começaram a postar coreografias ao som da música. Só a versão de Jungkook superou 91,6 milhões de visualizações.
A faixa atingiu 16 milhões de streams no Spotify e liderou as paradas de R&B/Soul do iTunes na Indonésia e em Singapura. O áudio se transformou em trend em mais de 149 mil vídeos no TikTok.
Em agosto, dois artistas humanos, o influenciador‑músico poliglota Kaien Nuen e a cosplayer e influenciadora Sugar, pediram autorização a M.Sasuke e gravaram a música com suas próprias vozes para o clipe oficial.
O problema foi a falta de transparência: a música circulou por meses sem qualquer indicação de que era gerada por IA, e ídolos reais dançaram ao som dela, fingindo ou não que se tratava de uma gravação convencional.
A controvérsia ocupa o espaço cinzento entre “usar IA” e “não avisar que usou”, o mesmo vácuo que gerou polêmica no Brasil com “Sina de Ofélia”, uma versão em português de uma música de Taylor Swift criada por IA e colocada nas vozes de Luísa Sonza e Dilsinho, que nunca gravaram a canção.
“GG EZ” representa uma evolução do meme “67”: mesma combinação de gíria, dança simples e repetição obsessiva, só que agora produzida por um algoritmo, distribuída como se fosse de um artista humano e validada por celebridades reais antes mesmo de o público saber que estava dançando para uma máquina.
Se o “67” provou que a internet consegue viralizar qualquer coisa, “GG EZ” demonstra que a fábrica do nada agora opera em escala industrial, e ninguém — nem mesmo Jungkook — consegue distinguir a diferença.







