De bichos de pelúcia à presidência da Anthropic: a trajetória de Daniela Amodei na inteligência artificial

Conselho de pelúcia para resolver conflitos corporativos

Daniela Amodei, presidente da Anthropic, recorria a um grupo de bichos de pelúcia para refletir sobre dilemas de gestão. O gato Jinji sugeria cancelar reuniões, a ursa rosa Maura exigia atenção aos detalhes e o panda Beary Bonds representava generosidade. Segundo reportagem da The Atlantic, ela e seu marido, Holden Karnofsky, atribuíam personalidades aos animais para simular cenários de liderança, ainda na época da OpenAI. A prática funcionava como um exercício de análise de personalidades, embora poucos colegas soubessem de sua existência.

Da literatura à tecnologia: uma carreira multidisciplinar

Formada em literatura pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz em 2009, com estudos complementares em política, Daniela começou a carreira em desenvolvimento internacional, atuando em ONGs em Washington e em projetos de saúde pública no leste da África. Passou também por uma campanha eleitoral e pelo Congresso americano. Em 2022, ao falar no podcast do Future of Life Institute, ela relatou que buscava maior impacto, o que a levou à Stripe, onde acompanhou o crescimento de uma startup de pagamentos e percebeu o poder de uma equipe pequena para criar tecnologia com alcance econômico.

Na Stripe, seu trabalho evoluiu do recrutamento para operações de risco, onde observou o contraste entre sistemas regidos por regras e laboratórios de IA ainda em definição de práticas de segurança. Essa experiência a preparou para a vice-presidência de segurança e políticas na OpenAI, onde combinava gestão de pessoas e controles operacionais.

Fundação da Anthropic: do quintal ao laboratório

Em dezembro de 2020, Daniela deixou a OpenAI junto com seu irmão Dario e outros ex-colegas para fundar a Anthropic, empresa responsável pelo modelo de linguagem Claude, lançado em março de 2023 como concorrente do ChatGPT. As primeiras reuniões ocorriam ao ar livre, com máscaras e distanciamento, devido às restrições da pandemia. O objetivo era criar uma organização dedicada à pesquisa e à segurança, mas foi necessário estruturar equipes, captar recursos e desenvolver um modelo de linguagem do zero.

Após testes com Notion, Quora e DuckDuckGo, o Claude passou a oferecer recursos de escrita, resumo de documentos e programação. A equipe cresceu de cerca de 60 para aproximadamente 140 pessoas durante o desenvolvimento. Daniela, em entrevista à Stripe em julho de 2023, destacou que a segurança precisa ser atraente para clientes, pois consumidores e empresas não desejam pagar por sistemas que geram informações falsas ou conteúdo nocivo. “O mercado busca confiança e segurança”, afirmou, reconhecendo os possíveis conflitos entre princípios éticos e interesses comerciais.

Entre o laboratório e o negócio: liderança e rotina

Atualmente, Daniela preside a Anthropic e seu conselho de administração, gerenciando a equipe executiva e coordenando pesquisa, engenharia, produto, governança e vendas. Dario, como CEO, lidera a direção de pesquisa e a visão estratégica. Sua rotina inclui duas horas no início do dia para reflexão e projetos maiores, antes de reuniões e decisões estratégicas. Ela também se esforça para conhecer novos funcionários e entender suas experiências, uma tarefa que se torna mais desafiadora à medida que a empresa cresce.

Em conversa publicada por Stanford em junho de 2026, Daniela se descreveu como generalista e reafirmou que escolheria o mesmo caminho acadêmico novamente, valorizando a curiosidade e a interdisciplinaridade. Em entrevista à ABC News, citada pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz, ela afirmou que “estudar humanidades será mais importante do que nunca”.

Do conselho de pelúcia à presidência de um dos principais laboratórios de IA, Daniela Amodei continua a aplicar sua habilidade de compreender diferentes personalidades, agora ensinando máquinas a conversar.