Bill Gates alerta sobre impactos desiguais da IA e pede medidas de segurança urgentes

Em entrevista ao podcast The Ezra Klein Show, do The New York Times, publicada na terça-feira, 29, Bill Gates, cofundador da Microsoft, argumentou que os efeitos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho não serão uniformes em todo o mundo. Ele destacou que os países ricos sentirão as mudanças primeiro, seguidos pelas economias de renda média — como Brasil, China, Vietnã e Indonésia — e, posteriormente, pelas nações mais pobres.

Gates comparou as realidades distintas de países de renda média e de baixa renda, citando diferenças na mortalidade infantil e na disponibilidade de médicos. “Existem países de renda média, como China, Brasil, Vietnã e Indonésia, onde as economias estão crescendo e a taxa de mortalidade infantil é, no máximo, três vezes menor que a dos Estados Unidos. Por outro lado, existem países de baixa renda onde 15 vezes mais crianças morrem antes dos 5 anos de idade, e não há médicos”, disse Gates. “Você vive a vida inteira sem nunca encontrar um médico. Você tenta descobrir quais sementes plantar, sem nunca ter ninguém para te aconselhar sobre o que fazer”, afirmou.

Para o empresário, tratar o Sul Global como um bloco homogêneo impede a compreensão dessas desigualdades. “Tratar o Sul Global como uma coisa uniforme não permite entender como é viver ali”, disse Gates. “Precisamos, portanto, de um pouco mais de nuance. Em países de baixa renda, a IA será, em sua grande maioria, algo positivo e deve ser impulsionada o mais rapidamente possível”, afirmou.

Apesar do otimismo em relação ao potencial da IA para resolver problemas básicos de saúde, educação e agricultura, Gates alertou que a substituição de tarefas cognitivas pode deixar muitos trabalhadores sem novas ocupações. “A IA é uma ferramenta para o bem, ajudando as pessoas que mais precisam, com problemas humanos muito básicos”, afirmou. “A cognição humana tornou-se o elemento escasso. É sempre uma questão de recursos escassos. Quando você substitui a cognição humana como o recurso escasso — na verdade, você a supera em termos de trabalhar 24 horas por dia, ler mais, conhecer todos os idiomas — não há escassez no que você esteja progredindo”, afirmou.

Riscos podem anteceder os benefícios

Gates também ponderou que, sem controles adequados, os perigos da IA podem surgir antes que seus benefícios se concretizem. Ele rejeitou a ideia de que a humanidade esteja condenada, mas destacou que a capacidade de automação pode ser usada para ataques cibernéticos ou biológicos antes que regulamentações e testes estejam em vigor. “O problema de controle é sério, mas o risco iminente não é o autoaperfeiçoamento recursivo. O risco iminente é que essas são as ferramentas mais poderosas de todos os tempos”, afirmou.

Em contraste com tecnologias de alto risco como armas nucleares, Gates observou que os sistemas de IA não são desenvolvidos principalmente com financiamento governamental. “Não é como foguetes ou armas nucleares”, diz. Essa distinção, segundo ele, contribui para a falta de compreensão dos governos sobre os perigos envolvidos.

Para mitigar essas ameaças, ele defende a implementação imediata de salvaguardas e de um sistema de supervisão obrigatório. “Essa camada de supervisão é necessária com urgência”, afirma. Gates argumenta que esperar por grandes incidentes para agir permitiria que as capacidades da IA avançassem em direções perigosas. “Isso é um erro gigantesco”, afirma.

Uma era de abundância condicionada

O cofundador da Microsoft ainda vislumbra um futuro de abundância, no qual a IA pode reduzir custos de saúde, alimentação e moradia, mas somente se a humanidade mantiver o controle sobre os sistemas e conseguir limitar os danos durante a transição. “As coisas boas, se não tivermos cuidado, chegam mais lentamente do que os riscos biológicos e cibernéticos”, afirmou Gates.

Ele propõe que os países adotem contribuições sobre trabalho automatizado, reservem atividades essenciais para humanos e estabeleçam normas obrigatórias para modelos avançados. Essas medidas, segundo ele, são essenciais para garantir que os benefícios da IA sejam distribuídos de forma justa e que os riscos sejam contidos.

Em resumo, Bill Gates defende que as políticas públicas e o diálogo internacional devem reconhecer as disparidades entre as economias e agir proativamente para evitar que os perigos da inteligência artificial superem suas promessas.