Um levantamento realizado pela Endeavor revela que 78% dos empreendedores consultados sentem pressão alta ou máxima para acompanhar a inteligência artificial. A cobrança mais frequente vem dos próprios fundadores: 90% dos respondentes citam o fundador como principal fonte, seguido pelo conselho (29%), investidores (22%) e equipe (20%).
Os dados integram o novo capítulo da série “Inteligência Artificial nas Scale-Ups”, produzido pela Endeavor com apoio da Salesforce e da Onfly. O material compila respostas de 133 empreendedores de 125 empresas, entrevistas com 20 líderes e a análise de mais de 200 mentorias realizadas nos últimos 12 meses.
O estudo concentra-se na gestão do tempo, identificando quais atividades podem ser transferidas para a tecnologia e quais ainda exigem atenção direta dos fundadores. Os resultados refletem o perfil dos participantes e não representam o conjunto de todos os empreendedores brasileiros.
O tempo economizado pode se transformar em mais trabalho
Entre os respondentes que usam ferramentas de IA por seis horas ou mais diariamente, 71% relatam pressão máxima para acompanhar a tecnologia. Já entre aqueles que utilizam essas ferramentas por até duas horas, o percentual cai para 29%.
A comparação sugere uma associação entre intensidade de uso e pressão percebida, mas não permite concluir que o maior tempo dedicado à IA seja a causa dessa cobrança.
Um dos depoimentos reunidos pela Endeavor ilustra como os ganhos de eficiência podem ser absorvidos pela expansão das atividades. “Como cada frente ficou mais barata de manter aberta, o número de frentes subiu. O tempo economizado foi reinvestido em volume”, afirma Fernando Steler, empreendedor da Delend.
Nesse contexto, o levantamento apresenta práticas para que a redução do esforço operacional também libere espaço para análise, definição de prioridades e acompanhamento das equipes.
O que delegar depende das consequências
A IA já participa da preparação de decisões: 59% dos empreendedores afirmam recorrer à tecnologia quase sempre antes de tomar uma decisão, segundo a pesquisa.
A orientação proposta é distinguir tarefas operacionais de atividades intelectuais mais complexas, considerando também o impacto de um erro e a possibilidade de revertê-lo.
“Quanto maior a consequência e menor a reversibilidade, maior precisa ser a participação do CEO”, afirma Alexandre Hadade, empreendedor da Birdie.
A Endeavor desenvolveu uma matriz de uso e risco para orientar essa distribuição. “O framework baliza onde o empreendedor delega esforços operacionais e como alocar mais do seu tempo em frentes de impacto”, explica Daniella Mello, diretora de marketing da Endeavor Brasil.
Um “segundo cérebro” para preparar reuniões
Uma das recomendações é utilizar projetos e agentes de IA para recuperar o histórico da empresa e organizar informações antes de análises e reuniões. O material chama essa estrutura de “segundo cérebro”.
Igor Senra, empreendedor da Cora, relata que recebe um resumo dos encontros e dos assuntos do dia com cada pessoa do time. O sistema ajuda a retomar conversas anteriores e a preparar os próximos encontros.
“É como se eu tivesse um chefe que nunca se esquece de nada. Está tudo documentado, com histórico das conversas. Minhas reuniões agora são muito mais profundas, mas elas ocupam quase o mesmo tempo de antes”, afirma.
O depoimento destaca um ganho na preparação e no conteúdo das reuniões, sem uma redução equivalente na duração dos encontros.
A liderança continua responsável pela decisão
Ao comparar a confiança nas fontes de apoio à tomada de decisão, 46% dos empreendedores dizem confiar mais na equipe, 35% adotam uma posição neutra e 20% confiam mais na IA, conforme os percentuais apresentados pela Endeavor.
Em processos de contratação, feedbacks e decisões sobre cultura, o material recomenda usar a tecnologia para organizar informações, recuperar fatos e preparar perguntas. A condução das conversas e as decisões finais permanecem sob responsabilidade da liderança.
Rodrigo Cava, empreendedor da Estoca, relata que a empresa revisou o uso de IA na análise de currículos depois de identificar a rejeição de candidatos qualificados.
“Há decisões nas quais a capacidade de avaliar a resposta e assumir as consequências importa tanto quanto a eficiência do processo”, afirma.
Preservar espaço para pensar
As práticas reunidas também incluem ajustes na agenda. Fabiane Pellegrino, empreendedora da Makasi, relata que intervalos de cinco a dez minutos entre reuniões melhoram a qualidade de sua rotina.
“É aquele momento em que você se estica e também elabora”, diz.
Para Daniella Mello, acompanhar a transformação exige selecionar onde concentrar a atenção. “Sentir que tudo está mudando não significa que tudo precise mudar ao mesmo tempo: liderar vai depender cada vez mais de proteger o espaço para pensar e ter as pessoas e ferramentas certas para ampliar seu raciocínio”, afirma.
Perguntas frequentes
Quantos empreendedores sentem pressão para acompanhar a IA?
Entre os participantes do levantamento da Endeavor, 78% relatam pressão alta ou máxima.
De onde vem a principal cobrança?
O próprio fundador é a fonte mais citada, por 90% dos respondentes. Conselho, investidores e equipe aparecem em seguida.
Como o levantamento foi elaborado?
O material combina respostas de 133 empreendedores de 125 empresas, entrevistas com 20 empreendedores e lideranças e a análise de mais de 200 mentorias dos últimos 12 meses.
O que significa usar IA como “segundo cérebro”?
É organizar projetos e agentes que recuperem o histórico da empresa e ajudem a preparar análises e reuniões, conforme a proposta apresentada pela Endeavor.
Usar mais IA provoca mais pressão?
O levantamento identifica maior pressão entre os participantes que usam as ferramentas por mais tempo, mas não demonstra uma relação de causa e efeito.







