Como a inteligência artificial está redesenhando os cargos de gestão intermediária

Gerentes de nível médio estão no centro do debate sobre o impacto da inteligência artificial no emprego. A dúvida é se os cortes recentes indicam a substituição desses profissionais ou uma reorganização maior das empresas, na qual a tecnologia é apenas um dos fatores.

Os dados disponíveis respondem a uma parte da pergunta. Eles vêm sobretudo dos Estados Unidos, onde há levantamentos mensais de demissões, e servem de referência para empresas que atuam em vários países.

O que os números de demissões mostram

A consultoria Challenger, Gray & Christmas, referência em balanços de cortes nos Estados Unidos, contabilizou até agosto de 2026 116.175 demissões atribuídas à IA, cerca de 22% de todos os anúncios do ano. Esse foi o motivo mais citado em vários meses seguidos, e chegou a 40% do total em maio.

Em agosto, porém, a reestruturação voltou a liderar as justificativas, com 16.173 cortes, contra 3.462 ligados à IA. Para a própria Challenger, os números não indicam um colapso do mercado de trabalho, mas mostram empresas agindo com base na tecnologia.

Onde entram os gerentes

Os relatórios não separam as demissões por nível hierárquico, e não existe uma categoria estatística oficial para “gerente de nível médio”. A ligação entre cortes e gestão aparece em casos pontuais. Em janeiro, por exemplo, a Challenger registrou uma empresa que anunciou 16 mil cortes ao reestruturar suas camadas de gerência.

Por que a gestão intermediária entra na conta

Parte do trabalho desse grupo envolve coordenação e relatórios: resumir reuniões, redigir atualizações de status, organizar cronogramas e consolidar números de equipes. São tarefas que ferramentas de IA generativa já executam com bom desempenho.

Um cenário prático: um gerente que dedicava parte da semana a reunir dados de cinco times para montar um relatório pode ter essa etapa automatizada. A empresa passa então a avaliar se ainda precisa daquele nível de intermediação.

A Gartner projeta que, até o fim de 2026, uma em cada cinco organizações usará IA para achatar sua estrutura, eliminando mais da metade dos cargos de gestão intermediária. É uma projeção, não um balanço do que já ocorreu.

Gerentes com equipes maiores

Uma análise da Gusto, empresa de folha de pagamento voltada a pequenos e médios negócios, indica que gerentes intermediários supervisionam hoje o dobro de pessoas em relação a cinco anos atrás. A mesma análise apontou que setores com mais gestores humanos têm, por ora, melhor produtividade.

O que os dados ainda não respondem

Há quem veja nas demissões um uso da IA como justificativa para cortes de outra natureza. Em pesquisa da ResumeTemplates com gestores de contratação, 59% disseram que suas empresas destacam a IA ao explicar demissões ou congelamento de vagas. Ao apontar os motivos reais, a IA (44%) dividiu espaço com reestruturação (42%) e restrição de orçamento (39%).

O que acompanhar daqui para frente

Os números indicam que a IA se tornou o motivo mais declarado para demissões nos Estados Unidos em 2026, mas não comprovam, sozinhos, que gerentes de nível médio estão sendo cortados por causa dela. O que os dados sustentam é a redução de camadas e o aumento do número de pessoas por gestor.

Os próximos relatórios mensais da Challenger e novas pesquisas sobre estrutura organizacional devem indicar se o movimento se consolida.