Crescimento de data centers e IA pressiona planejamento energético do Brasil

Treinar modelos de inteligência artificial e operar sistemas de IA exige uma quantidade enorme de computadores, instalados em data centers que precisam de eletricidade constante. Embora o impacto ainda seja pequeno diante do consumo total do país, a velocidade com que essas estruturas se expandem já entrou no radar dos responsáveis pelo planejamento energético nacional.

O Ministério de Minas e Energia e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projetam que o consumo brasileiro de eletricidade chegará a 939 TWh em 2035, no cenário de referência, com um crescimento médio de 3,3% ao ano. Pela primeira vez, o estudo inclui uma análise específica de grandes cargas, como data centers, eletromobilidade e produção de hidrogênio. Dependendo do cenário, essas cargas especiais podem representar entre 1,2% e 12,9% da demanda projetada para 2035.

Por que a IA consome tanta energia?

A inteligência artificial depende de chips especializados para realizar um volume enorme de cálculos. Quanto maior a capacidade computacional utilizada, maior é a necessidade de eletricidade. Há ainda outro consumo relevante: o resfriamento dos equipamentos. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo mundial de eletricidade dos data centers pode chegar a cerca de 1.000 TWh em 2026 no cenário de maior demanda, sendo a expansão da IA um dos fatores que impulsionam esse crescimento.

Quem arca com os custos da expansão?

A resposta varia conforme a estrutura de cada projeto. Parte dos custos está diretamente ligada ao próprio consumidor que se conecta à rede. As regras da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabelecem que os encargos de conexão são responsabilidade dos usuários e cobrem despesas como projeto, equipamentos, operação e manutenção.

Além disso, existem os custos gerais do sistema elétrico: a conta de luz dos consumidores inclui geração, transmissão, distribuição, encargos setoriais e tributos. Obras de expansão da rede podem envolver diferentes mecanismos de remuneração e não devem ser tratadas como uma despesa exclusiva dos data centers. A questão ganha relevância porque o número de projetos em análise é grande. Em 2025, a EPE registrou um aumento expressivo nos pedidos de conexão de data centers e passou a monitorar essas cargas para dimensionar a expansão da transmissão.

O Brasil terá energia suficiente?

O país parte de uma situação particular: sua matriz elétrica tem uma participação elevada de fontes renováveis, o que pode ser um atrativo para empresas que precisam reduzir a intensidade de carbono de suas operações. Ainda assim, produzir energia não basta — também é necessário conseguir levá-la até onde estão os grandes consumidores.

A EPE já estuda reforços para atender cargas eletrointensivas. No Ceará e no Piauí, por exemplo, foi proposta uma solução de transmissão capaz de viabilizar até 4 GW adicionais para projetos como data centers e plantas de hidrogênio a partir de 2032. O desafio envolve construir geração, transmissão e conexões capazes de acompanhar uma demanda que pode crescer rapidamente. Para o Brasil, a expansão dos data centers representa simultaneamente uma oportunidade de investimento e uma pressão adicional sobre o planejamento do sistema elétrico.