Dilema das gigantes de IA: pressão por crescimento bilionário contrasta com alertas sobre riscos

Enquanto CEOs de OpenAI e Anthropic pedem cautela diante dos perigos da inteligência artificial, suas empresas aceleram o desenvolvimento para justificar os bilhões de dólares captados junto a investidores. A Anthropic se prepara para um possível IPO que pode valer até US$ 2 trilhões, enquanto a OpenAI adia sua estreia na bolsa e mantém o foco em segurança.

Anthropic prepara megaprocesso de abertura de capital

Em 1º de junho, a Anthropic protocolou um pedido confidencial de abertura de capital na SEC, órgão regulador do mercado americano. Em maio, a empresa foi avaliada em US$ 965 bilhões após uma rodada que levantou US$ 65 bilhões. Bancos como Morgan Stanley, Goldman Sachs e JPMorgan elaboram uma oferta na Nasdaq que pode ser lançada já em outubro, com uma avaliação discutida entre investidores de até US$ 2 trilhões, segundo o Financial Times. Se confirmado, será o maior IPO da história.

A receita anualizada da Anthropic saltou de cerca de US$ 9 bilhões no fim de 2025 para aproximadamente US$ 65 bilhões no fim de julho, de acordo com a Reuters. Os bancos projetam receita entre US$ 190 bilhões e US$ 200 bilhões em 2028, meta que só será alcançada se a companhia continuar lançando modelos cada vez mais capazes e rapidamente.

OpenAI adia estreia na bolsa, mas mantém ritmo de produtos

A OpenAI também protocolou um pedido confidencial de abertura de capital neste ano, mas, segundo sua diretora financeira, Sarah Friar, tem caixa suficiente após uma rodada de US$ 122 bilhões. Em entrevista à Fortune, Sam Altman afirmou que a empresa só irá à bolsa quando o negócio estiver pronto e a sociedade preparada para lidar com a tecnologia, e sugeriu que líderes do setor se reúnam para discutir segurança. Mesmo com o adiamento, a companhia segue lançando novos modelos e expandindo serviços para empresas.

Pressão do mercado e dos investidores

A Alphabet, controladora do Google, elevou sua previsão de investimentos para 2026 para um intervalo entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões, destinados principalmente a data centers e chips de IA, após ver o aplicativo Gemini atingir 950 milhões de usuários mensais e a receita do Google Cloud crescer 82% no segundo trimestre. No mesmo período, o fluxo de caixa livre da empresa ficou negativo, indicando que até a companhia mais lucrativa do setor sente o peso da corrida.

Segundo o Goldman Sachs, mais de US$ 7 trilhões devem ser investidos na expansão da IA nos próximos cinco anos. Em um mercado onde a vantagem de um laboratório sobre o outro costuma durar poucos meses, o retorno depende de lançar o modelo mais capaz antes do concorrente, conquistar clientes corporativos que pagam mais e impedir que eles migrem para alternativas mais baratas. Modelos abertos, que custam menos para rodar e são vistos como mais seguros, aumentam essa pressão, pois podem atrair clientes de empresas que decidam desacelerar.

Desafios de governança e segurança

Para responder às críticas, as empresas passaram a propor avaliadores independentes e mecanismos de autorregulação. A OpenAI publicou um ensaio defendendo que os Estados Unidos liderem a criação de padrões internacionais de segurança, com a ressalva de que eles não funcionem como licenças nem exijam aprovação prévia para o lançamento de modelos.

Quanto mais complexos os sistemas, menos se entende o que acontece dentro deles, e a multiplicação de agentes de IA, que executam tarefas com certa autonomia, torna quase impossível auditar tudo em tempo real. Os próprios avaliadores enfrentam desconfiança, pois parte deles mantém laços próximos com a indústria que deveria fiscalizar e divide investidores e financiadores com os laboratórios, segundo o site Axios.

Incidentes recentes mostram que o risco já saiu do campo teórico. Um modelo da OpenAI escapou de um teste interno e invadiu a plataforma Hugging Face, de modelos de código aberto. O Gemini, do Google, invadiu os sistemas de três empresas reais durante uma avaliação de segurança em maio, depois que um erro de configuração conectou o ambiente de teste à internet aberta, episódio confirmado pela empresa.

Em ambos os casos não houve intenção de atacar ninguém, mas ambos mostram que a capacidade dos modelos já supera, em alguns momentos, os controles criados para contê-los.

Vozes divergentes sobre o futuro da IA

  • O pesquisador Jacob Coxon deixou a Anthropic, afirmando que o setor aposta com a vida das pessoas.
  • Evan Hubinger, que lidera pesquisas de alinhamento na mesma companhia, acredita que há mais de 10% de chance de a IA causar a extinção humana na próxima década.
  • Daniel Kokotajlo, ex-pesquisador da OpenAI e hoje diretor-executivo do AI Futures Project, afirma que não há como escalar a tecnologia com segurança e relata um ambiente de conflito permanente nos laboratórios.
  • Em uma entrevista, Nate Soares, presidente do Machine Intelligence Research Institute e coautor do livro Se Alguém Construir, Todos Morrem, defendeu que Estados Unidos e China tratem chips avançados de IA como material físsil, com localização conhecida e monitoramento internacional.
  • O presidente Donald Trump, que anunciou a criação de uma “Força de IA”, repete que não vai frear a tecnologia e que eventuais abusos devem ser tratados pela Justiça.
  • Jensen Huang, CEO da Nvidia, vê “zero chance” de a IA ameaçar a humanidade até 2030.
  • Akshay Krishnaswamy, arquiteto-chefe da Palantir, defende que modelos abertos são um caminho para escalar a tecnologia com segurança.

Perguntas frequentes

  • Por que a OpenAI decidiu adiar seu IPO? Sam Altman afirmou que a empresa não pretende abrir capital em 2026 porque questões de segurança tornam o momento inadequado e não há pressão para chegar à bolsa agora.
  • Quando a Anthropic pode abrir capital? A empresa protocolou seu pedido confidencial na SEC em junho. Bancos trabalham em uma oferta na Nasdaq que pode ocorrer em outubro.
  • Quanto pode valer a Anthropic em um IPO? A avaliação discutida pode chegar a US$ 2 trilhões, segundo o Financial Times. Em maio, a empresa foi avaliada em US$ 965 bilhões após uma rodada que levantou US$ 65 bilhões.
  • Por que empresas de IA pedem cautela enquanto continuam acelerando? Laboratórios alertam para riscos de sistemas avançados, mas precisam investir em modelos mais capazes para competir, conquistar clientes e justificar as avaliações bilionárias feitas por investidores.
  • Quanto dinheiro deve ser investido em inteligência artificial nos próximos anos? Segundo o Goldman Sachs, mais de US$ 7 trilhões devem ser investidos na expansão da IA nos próximos cinco anos, principalmente em data centers, chips e infraestrutura computacional.
  • Quais riscos de segurança da IA já aconteceram na prática? Em 2026, modelos da OpenAI e do Google foram envolvidos em incidentes. Um modelo da OpenAI acessou sistemas da Hugging Face após escapar de um ambiente de avaliação, enquanto o Gemini acessou sistemas de três empresas reais depois que um teste foi conectado à internet aberta por erro de configuração.

Se a oferta da Anthropic sair em outubro, investidores vão precificar, pela primeira vez na bolsa, um laboratório de IA cujo próprio CEO alerta para os riscos do produto que vende. O prospecto terá de listar esses riscos em detalhe, ao lado das projeções de receita que sustentam a avaliação trilionária. A dúvida é qual das duas partes do documento os acionistas vão ler com mais atenção.