Como a inteligência artificial está criando o superfuncionário e redefinindo o trabalho

Profissionais que precisam preparar apresentações, analisar dados, redigir relatórios e revisar documentos agora recorrem a ferramentas de IA para acelerar parte dessas atividades e dedicar mais tempo às decisões estratégicas. O fenômeno recebeu o nome de “superfuncionário”, termo popularizado pelo analista Josh Bersin para descrever quem usa IA para ampliar produtividade, criatividade e capacidade de execução.

O que significa ser um superfuncionário

Não se trata de uma pessoa realizando literalmente o trabalho de três funcionários. A ideia é que a IA amplie a capacidade individual, permitindo que mais tarefas sejam realizadas no mesmo período. Um profissional de marketing pode usar IA para pesquisar informações, organizar dados, gerar rascunhos de textos e avaliar campanhas. Um analista financeiro pode recorrer a ferramentas para estruturar planilhas, resumir documentos e identificar padrões.

Como a IA altera a rotina de trabalho

Na prática, a inteligência artificial assume parte de atividades demoradas, como produção e revisão de textos, análise de informações, criação de apresentações, programação, pesquisa e organização de documentos. O ganho não está apenas na velocidade, mas também na possibilidade de o profissional assumir novas tarefas que antes seriam deixadas de lado por falta de tempo.

Um estudo interno da Anthropic com 132 engenheiros e pesquisadores ilustra esse comportamento. Os funcionários declararam usar o Claude em cerca de 59% do trabalho e relataram, em média, um aumento de produtividade de 50%. A pesquisa também mostrou que 27% das atividades realizadas com o auxílio da ferramenta não teriam sido executadas sem ela.

Limites da produtividade impulsionada por IA

A relação entre IA e produtividade não pode ser resumida a uma multiplicação fixa. Não existe uma regra de que um funcionário com IA equivale a três pessoas. Os resultados variam conforme a profissão, a tarefa, o nível de conhecimento do usuário e a ferramenta utilizada.

Em outra análise, a Anthropic examinou 100 mil conversas reais com o Claude e estimou que as tarefas realizadas com o apoio da IA levariam, em média, cerca de 90 minutos sem a ferramenta, representando uma redução de aproximadamente 80% no tempo de execução. O cálculo, porém, não considera integralmente o tempo gasto pelo profissional para verificar informações, corrigir respostas ou validar resultados produzidos pela IA. Por isso, o ganho estimado não deve ser interpretado como um aumento automático de produtividade em qualquer profissão.

A necessidade de adaptação humana

O fenômeno dos superfuncionários vai além de aprender a escrever bons prompts. O trabalhador precisa identificar quais partes de uma atividade podem ser delegadas à IA e quais dependem de conhecimento, contexto e julgamento humano.

Na Anthropic, os engenheiros relataram que passaram a atuar em áreas fora de sua especialidade original. A empresa também observou aumento da complexidade das tarefas executadas pelo Claude Code e redução da quantidade de intervenções humanas necessárias em determinadas atividades. Isso representa uma mudança importante: o profissional passa a atuar menos como executor de cada etapa e mais como responsável por orientar, revisar e integrar o trabalho produzido com IA.

Fatores que determinam o sucesso

O uso da ferramenta, por si só, não garante os mesmos resultados para todos. Conhecimento sobre a própria atividade, capacidade de formular instruções claras, domínio das ferramentas disponíveis e habilidade para verificar informações influenciam o resultado obtido. Também é essencial saber identificar quais tarefas são adequadas para automação e quais exigem participação humana. Uma resposta produzida rapidamente pela IA ainda precisa ser conferida quando envolve informações relevantes para uma decisão profissional.

Uma pesquisa da Gallup publicada em 2026 mostra que 65% dos funcionários de organizações que implementaram IA dizem que a tecnologia teve efeito positivo sobre sua produtividade e eficiência. Ao mesmo tempo, apenas 14% afirmam que a IA transformou fortemente a forma como o trabalho é realizado na organização. Os dados indicam que, para muitos profissionais, a inteligência artificial ainda funciona principalmente como um reforço dentro do fluxo de trabalho existente, e não como uma substituição completa desse processo.

Impacto nas carreiras e nas empresas

A ascensão dos superfuncionários também altera as habilidades valorizadas pelas empresas. Se parte da execução pode ser acelerada por IA, ganham importância atividades como análise, tomada de decisão, comunicação, conhecimento de negócio e capacidade de supervisionar sistemas.

O conceito defendido por Bersin acompanha justamente essa mudança: em vez de pensar apenas em automatizar empregos, as empresas podem redesenhar funções para combinar profissionais e sistemas de IA. Para o trabalhador, isso significa que aprender a utilizar IA pode envolver mais do que conhecer uma ferramenta específica. O desafio passa a ser entender onde a tecnologia gera ganho real, como verificar seus resultados e como incorporá-la às atividades que já fazem parte da profissão.

Os estudos disponíveis mostram ganhos relevantes de produtividade, mas também indicam que “fazer o trabalho de três” é uma metáfora, e não uma medida universal. O impacto da inteligência artificial depende da tarefa, do profissional e da maneira como a tecnologia é incorporada à rotina.