Modelo de IA Apollo acelera decifração de papiros gregos antigos

Um novo sistema de inteligência artificial chamado Apollo pode preencher lacunas em textos gregos milenares em questão de horas, tarefa que antes exigia anos de trabalho de especialistas. Desenvolvido pelo Instituto Arqueológico Austríaco, em colaboração com a empresa francesa Mistral e a consultoria Sail Reply, o modelo foi treinado com 600 milhões de palavras extraídas de manuscritos, inscrições e papiros.

Essa iniciativa responde ao desafio de cerca de 1 milhão de papiros gregos ainda não lidos, espalhados por bibliotecas e museus. Muitos estão rasgados, apagados ou com trechos ausentes, o que dificulta sua reconstrução. O Apollo sugere as palavras ou frases mais prováveis para completar os espaços vazios, permite buscas por tema e ajuda a interpretar textos escritos à mão. Desde segunda-feira, 22, pesquisadores podem acessar a ferramenta gratuitamente por meio de um chatbot.

‘Existem 1 milhão de papiros gregos no mundo que nunca foram lidos, dezenas de milhares deles na Coleção de Papiros da Biblioteca Nacional da Áustria’, disse a historiadora Anna Dolganov, líder do projeto. ‘Tesouros de conhecimento histórico como esses são o nosso alvo.’

A acadêmica destacou que o nome Apollo faz referência ao deus grego da luz e patrono das artes e das ciências. O presidente da Academia Austríaca de Ciências, Heinz Faßmann, afirmou que a ferramenta mostra que IA e línguas antigas não são uma contradição.

Do teatro clássico à vida cotidiana

Especialistas alertam que a maior parte dos papiros ainda não restaurados não contém obras perdidas de autores como Sófocles ou Homero. Em vez disso, são documentos do dia a dia: cartas, contratos de casamento e registros administrativos. O valor do Apollo está em revelar detalhes da rotina na Antiguidade e liberar os pesquisadores para se concentrarem na interpretação, em vez de na reconstrução manual de fragmentos.

Outros projetos de IA na arqueologia

O Apollo se junta a uma crescente lista de iniciativas que usam inteligência artificial para recuperar o passado. O Google DeepMind apresentou em 2022 o Ithaca, sistema para restaurar inscrições gregas, e em 2025 lançou o Aeneas, que trabalha com latim e grego. No Vesuvius Challenge, competição que já distribuiu US$ 1,8 milhão em prêmios, cientistas usaram tomografias de alta resolução e IA para ler pela primeira vez o texto completo de um rolo carbonizado de Herculano, incluindo 70 colunas de uma obra do filósofo Filodemo sobre vícios humanos.

Um estudo recente da Universidade da Califórnia em Berkeley mostrou que o chumbo presente na tinta de alguns rolos gera um sinal mais forte em imagens de raios X, ajudando a identificar quais documentos têm mais chance de serem decifrados.

Para a Academia Austríaca, o Apollo marca apenas o início de uma jornada promissora. ‘Este modelo abre novas perspectivas para o estudo da Antiguidade’, avalia Dolganov.