Influenciadores virtuais: como personagens digitais estão transformando marketing e consumo

Esses perfis possuem fotos, vídeos, personalidade, rotina e milhões de seguidores, embora não tenham existência física. São conhecidos como influenciadores virtuais, personagens digitais desenvolvidos com computação gráfica, inteligência artificial e equipes de produção.

Entre os exemplos mais famosos está Lil Miquela, criada em 2016. Em novembro de 2024, seu perfil no Instagram contava com mais de 2,5 milhões de seguidores, conforme um estudo publicado pela Springer Nature. A personagem já estrelou campanhas para marcas como Prada, Calvin Klein e Samsung.

Como funciona um influenciador virtual

Um influenciador virtual é uma persona digital construída para atuar nas redes sociais como criador de conteúdo. A equipe responsável define aparência, personalidade, interesses e narrativa, enquanto ferramentas digitais produzem imagens, vídeos e outros materiais. Em alguns casos, a inteligência artificial também gera textos e interações, permitindo publicações frequentes e uma identidade visual consistente.

No Brasil, um exemplo notável é Lu do Magalu, personagem virtual associada ao Magazine Luiza. Uma pesquisa na revista Contratexto examinou 799 publicações e detectou 87 posts com fins comerciais, além de campanhas nas áreas de tecnologia, moda, beleza e finanças.

Por que marcas usam pessoas que não existem?

Para as empresas, uma vantagem dos influenciadores virtuais é o maior controle sobre a personagem. Não há agenda pessoal, deslocamento físico ou necessidade de produzir sessões de fotos convencionais para cada publicação.

Aitana Lopez, desenvolvida pela agência espanhola The Clueless, exemplifica esse modelo. Em 2026, seus perfis somavam cerca de 400 mil seguidores e já participavam de campanhas comerciais, com uma equipe de 11 profissionais responsáveis pela gestão.

O fenômeno também interessa porque transforma a publicidade em uma operação mais próxima da criação de um ativo digital. A personagem pode aparecer em diferentes cenários, roupas e campanhas sem precisar estar fisicamente presente.

O consumidor sabe que está falando com uma IA?

Um dos principais pontos estudados por pesquisadores é a percepção do público. Uma revisão sistemática de 2025 na Acta Psychologica analisou 51 estudos e destacou três fatores recorrentes: autenticidade percebida, transparência e confiança.

Outra pesquisa, publicada em 2026 no Journal of Retailing and Consumer Services com 710 participantes, investigou como o realismo visual e comportamental influencia a confiança, a percepção de marcas e a intenção de compra. Os resultados indicaram que maior realismo está associado a essas respostas dos consumidores.

Isso ajuda a explicar por que a fronteira entre personagem, publicidade e pessoa pode se tornar menos evidente. Quanto mais realista é o conteúdo, maior pode ser a necessidade de deixar clara a natureza digital da persona.

O que muda para quem trabalha com marketing e conteúdo

O crescimento desses perfis gera novas funções e necessidades no mercado. Além de especialistas em marketing e publicidade, o modelo requer profissionais de produção audiovisual, análise de dados, design, estratégia e IA generativa.

Para os profissionais de comunicação, acompanhar essa mudança implica compreender não só a criação de imagens e textos com IA, mas também como essas ferramentas transformam a distribuição de conteúdo, a interação com o público e os modelos de negócio.

Na prática, os influenciadores virtuais revelam uma mudança significativa no mercado de conteúdo: a influência pode ser construída digitalmente, com personagens sem existência física, mas capazes de atrair audiência, firmar contratos comerciais e influenciar escolhas de consumo.