IA da Anthropic descobre novo sistema enzimático semelhante ao CRISPR

A Anthropic anunciou que seu modelo de inteligência artificial Claude identificou autonomamente um novo sistema de enzimas, batizado de ART, que apresenta características semelhantes às do CRISPR, tecnologia de edição genética que revolucionou a biologia na última década. A descoberta foi descrita em um pré-print publicado pela empresa, ainda sem revisão por pares.

Descoberta do sistema ART

O sistema encontrado foi denominado ART, sigla para “transcriptases reversas associadas a um conjunto de repetições” (array-associated reverse transcriptases). Ele aparece principalmente em bacteriófagos, os vírus que infectam bactérias, e combina três partes: uma enzima que copia RNA em DNA, um gene vizinho de função desconhecida e uma sequência de repetições de DNA igualmente espaçadas, um padrão parecido com o encontrado nos sistemas CRISPR.

Segundo a Anthropic, a função do ART ainda é desconhecida, mas a combinação dessas características só havia sido vista antes em um punhado de outros sistemas, todos programáveis e capazes de operações como cortar, copiar e colar DNA.

Feng Zhang, um dos pioneiros da edição genética com CRISPR e professor do MIT e do Instituto Broad, revisou o pré-print a pedido da empresa. “Este é um exemplo interessante de como agentes de IA podem contribuir para a descoberta biológica. A identificação de conjuntos de repetição de RNA associados a transcriptases reversas é genuinamente intrigante e merece investigação futura”, afirmou.

Como o Claude ‘encontrou’ o sistema

De acordo com a Anthropic, cientistas deram ao Claude uma única instrução: vasculhar um banco de dados de sequências de DNA em busca de exemplos interessantes dessas enzimas copiadoras de RNA. A partir daí, agentes do Claude reuniram mais de 200 mil sequências, selecionaram 3.500 candidatas a sistemas novos e restringiram a lista a 20 casos mais promissores, analisados em relatórios escritos pelo próprio modelo.

Ao todo, a busca levou 21 horas, usou cerca de 950 agentes rodando em paralelo e consumiu 210 milhões de tokens, as unidades que medem o processamento de um modelo de IA.

Foi durante essa varredura que um dos agentes notou um padrão incomum de repetições de DNA ao lado do gene da enzima. “É espetacular: consigo ver a olho nu um conjunto de repetições em série… isso é um conjunto de repetições parecido com o CRISPR?!”, escreveu o agente, segundo trecho reproduzido pela Anthropic.

A partir daí, o sistema passou a se comportar como um cientista faria diante de uma possível descoberta: contou as repetições, mediu o espaçamento entre elas, comparou o padrão com sistemas já conhecidos e buscou na literatura científica se algo parecido já havia sido descrito. Só depois disso, gerou um relatório para revisão humana.

Reproducibilidade ainda é limitada

A Anthropic afirmou que o resultado não é facilmente reproduzível. Depois de encontrar o padrão pela primeira vez, a empresa repetiu a mesma campanha de busca outras dez vezes, com o mesmo prompt inicial. Em nenhuma das dez tentativas os agentes voltaram a examinar o trecho específico de DNA que continha a descoberta, e todas elas deixaram passar o achado.

Em testes mais controlados, nos quais os pesquisadores já entregavam ao modelo o trecho de DNA relevante, em vez de deixá-lo vasculhar sozinho um banco de dados inteiro, os quatro modelos mais avançados da empresa identificaram o padrão de repetições em pelo menos 90% das tentativas.

Mas, quando precisavam usar arquivos e ferramentas por conta própria, como aconteceu na descoberta original, essa taxa caiu para até 32%, segundo o site especializado Daily.dev. Na prática, isso significa que o resultado depende bastante do comportamento imprevisível dos agentes de IA, e não de um método garantido de descoberta.

A enzima em si também não era desconhecida: estudos anteriores já a haviam identificado num tipo de vírus bacteriano conhecido como fago gigante. Segundo a Anthropic, o que o Claude fez de inédito foi notar as características que a acompanhavam, o conjunto de repetições e o gene vizinho, que ninguém havia associado a ela antes.

Parte de uma aposta maior em biologia

O anúncio é o primeiro resultado divulgado pelo novo laboratório da Anthropic, confirmado em 18 de setembro, na Baía de São Francisco. O espaço trabalha só com os níveis mais baixos de biossegurança e não lida com agentes patogênicos capazes de infectar humanos, segundo a empresa; todo o trabalho de bancada é feito por cientistas humanos, com o Claude auxiliando na interpretação dos dados.

A iniciativa se soma a outros movimentos recentes da Anthropic na área. Em abril, a empresa pagou US$ 400 milhões pela Coefficient Bio, startup de biotecnologia. Em junho, lançou o Claude Science, plataforma que integra mais de 60 bancos de dados científicos. A OpenAI, principal concorrente, lançou no mesmo mês o GPT-Rosalind, um modelo dedicado a pesquisas de ciências da vida.

Em publicação na rede social X, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, comentou o resultado com cautela. “Sua função precisa, utilidade biotecnológica, se houver alguma, ou nível de importância ainda não estão claros, mas, no mínimo, é um trabalho do qual eu teria orgulho”, escreveu.

Today we announced the Claude-led discovery of a molecular machine that we suspect could represent a new gene editing mechanism. Its precise function, biotechnological utility (if any), or level of significance is not yet clear, but at minimum it is work I would have been proud… https://t.co/hyzhzirNJe

— Dario Amodei (@DarioAmodei) September 23, 2026

Perguntas frequentes

O que o Claude descobriu na biologia?

Segundo a Anthropic, o Claude identificou um sistema de enzimas chamado ART, sigla para “transcriptases reversas associadas a um conjunto de repetições”. O sistema combina uma enzima que copia RNA em DNA, um gene vizinho de função desconhecida e sequências repetidas de DNA semelhantes às encontradas em sistemas CRISPR.

O sistema ART é uma nova versão do CRISPR?

Não. A Anthropic afirma que o ART tem características parecidas com sistemas CRISPR, mas sua função ainda é desconhecida. A empresa diz que a combinação específica de enzimas e repetições de DNA nunca havia sido descrita antes.

Como o Claude encontrou o sistema ART?

A Anthropic deu ao Claude a tarefa de procurar sequências interessantes de enzimas em bancos de dados de DNA. Agentes de IA analisaram mais de 200 mil sequências, selecionaram 3.500 candidatas e chegaram a 20 sistemas considerados promissores para análise.

Quanto tempo o Claude levou para fazer a descoberta?

Segundo a Anthropic, a busca levou 21 horas, envolveu cerca de 950 agentes de IA trabalhando em paralelo e consumiu aproximadamente 210 milhões de tokens, unidade usada para medir o processamento dos modelos de inteligência artificial.

A descoberta do Claude já foi confirmada pela ciência?

Ainda não. O resultado foi publicado em um pré-print, artigo científico que ainda não passou por revisão por pares. A Anthropic afirma que a função do sistema ART e sua importância biológica ainda precisam ser investigadas.

O Claude conseguiu repetir a própria descoberta?

Não de forma consistente. A Anthropic repetiu a mesma busca dez vezes e, em nenhuma delas, os agentes encontraram novamente o trecho específico de DNA associado à descoberta original. Em testes mais controlados, nos quais o modelo recebia o trecho relevante, a identificação do padrão ocorreu em pelo menos 90% das tentativas.

O que a Anthropic está fazendo na área de biologia?

A Anthropic criou um laboratório de pesquisa biológica na Baía de São Francisco e vem ampliando sua atuação científica. A empresa comprou a startup Coefficient Bio por US$ 400 milhões e lançou o Claude Science, plataforma com acesso a bases de dados científicos.

Quem revisou a descoberta do Claude?

O pré-print foi revisado por Feng Zhang, professor do MIT e do Instituto Broad e um dos pesquisadores associados ao desenvolvimento de tecnologias de edição genética baseadas em CRISPR. Ele afirmou que o trabalho é um exemplo interessante de como agentes de IA podem contribuir para descobertas biológicas.